Minha trajetória musical começou em 1998, quando eu tinha 9 anos. Meu tio Carlinho, gerente da icônica loja de instrumentos Guitarra de Prata, na Rua da Carioca, no centro do Rio de Janeiro, presenteou meu pai com um violão Eagle de cordas de nylon. Os olhos do meu pai brilharam — mas os meus brilharam ainda mais. Aquele violão novinho parecia um convite silencioso para um mundo que eu nem imaginava que existia.
Pouco tempo depois, meu pai começou a fazer aulas semanais com o dono de um bar perto da nossa casa. Eu fazia questão de ir com ele e prestar atenção em cada detalhe: cada exercício, cada posição, cada orientação. Eu absorvia tudo como se a aula fosse minha. Mas, por eu ser criança, meu pai não deixava eu tocar no violão. Ele dizia que eu iria “desafinar” o instrumento.
O Eagle ficava guardado dentro de um armário de madeira. E foi aí que eu criei, sem ninguém saber, a minha primeira rotina de estudos. Quando todos iam dormir, eu esperava o silêncio da casa, abria o armário com cuidado, pegava o violão e o caderno do meu pai e ia para a cozinha — o lugar mais distante dos quartos. Ali eu estudava escondido, numa mistura intensa de entusiasmo e medo: a alegria de tocar e a tensão de pensar no meu pai acordar e me encontrar com o violão que eu “não podia desafinar”.
Depois de algumas semanas, aconteceu algo que mudou tudo. Durante uma aula, o professor cobrou do meu pai os exercícios da semana anterior. Meu pai, sem ter praticado, deu uma desculpa dizendo que não tinha conseguido aprender. Eu, com a coragem que só quem ama muito alguma coisa consegue ter, interrompi e disse que eu sabia fazer.
Eles olharam para mim, surpresos. O professor então pegou o violão, colocou nas minhas mãos e falou: “Então faça.” Eu toquei. Executei tudo certinho, exatamente como estava no caderno. Foi um daqueles momentos em que o tempo parece parar — e a vida decide virar uma página.
Dali em diante, meu pai desistiu das aulas e, olhando para mim, disse: “A partir de hoje, esse violão é seu.” Naquele dia, oficialmente, o Eagle deixou de ser do meu pai e se tornou meu — e eu entendi que a música já morava em mim fazia tempo.
continua...